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Edição Nº 132 - Fevereiro/2010


A expansão da cana-de-açucar no Brasil, é:



  
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Pragas e doenças
Pequena e mortal
Desequilíbrio ambiental multiplica e intensifica surtos da mosca-dos-estábulos.Praga ataca bovinos, humanos, assusta produtores e estremece relação entre pecuária e setor sucroenergético
(Ariosto Mesquita/Reinaldo B. Padovan)

Imagine um rebanho bovino infestado por um inseto hematófago cuja picada é sete vezes mais dolorida do que a da mosca-dos-chifres? Sem falar no fato de que bastam 50 destes insetos sobre um animal para provocar redução de até 20% no seu peso e de 40% a 60% na produção de leite. Isso quando o bovino não acaba morrendo pela queda da resistência orgânica e consequente incidência de doenças. Só no Mato Grosso do Sul, há relato da morte de aproximadamente 80 animais em 2009, em uma única propriedade, durante forte surto deste inseto. Esta praga é a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans), existente há anos no Brasil e que até então era registrada em surtos de pequena extensão e sem maiores complicações.

De dois anos pra cá, entretanto, sua proliferação aumentou significativamente e seus surtos, segundo estudiosos, dão sinais de que podem passar a ser cíclicos ou permanentes e muito mais graves. Além de bovinos e equinos ela também pode atacar animais domésticos e até mesmo o homem. Em 2009 o alerta foi geral: surtos em São Paulo, Minas Gerais e, sobretudo, no sul do Mato Grosso do Sul acionaram o sinal de perigo. No final de dezembro também foi relatado surto na região de Jataí, em Goiás. As ocorrências tinham algo em comum: a proximidade das fazendas de pecuária com usinas de cana-de-açúcar.

Rapidamente, pesquisadores da Embrapa e professores universitários mergulharam em estudos para atestar o que estaria gerando esta proliferação e buscar meios de controle. No final de dezembro de 2009, a Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, MS, publicou o Documento 175, que detalha estes estudos. No entanto, os próprios pesquisadores alegam que o problema está muito longe de ter uma solução.

O primeiro objetivo dos estudos teve alcance bastante razoável. Foi confirmado que dois fatores de desequilíbrio ambiental fizeram disparar a incidência das moscas: a instabilidade climática (excesso de chuvas e temperaturas elevadas mesmo no período de seca) e a ampliação de áreas de cana-de-açúcar e sua proximidade com a atividade pecuária, somadas à existência de resíduos orgânicos expostos em ambos os lados. O combate objetivo a esta praga, no entanto, ainda é uma incógnita. Os cientistas recomendam apenas medidas para reduzir as chances de infestação e não encontram resultados concretos em ações mais convencionais como a aplicação de inseticidas.

Resíduos – A proliferação da mosca, portanto, vem acontecendo em locais onde os procedimentos das atividades sucroenergética e pecuária (principalmente em confinamentos de corte ou em gado de leite) criam condições ideais para isso. Os pesquisadores da Embrapa apontam os locais onde há resíduos orgânicos de origem vegetal ou animal, em processo de decomposição ou de fermentação, como ambientes ideais para a postura de ovos por parte das moscas. A sobrevivência das larvas é maior na medida em que duas situações ocorram: alta umidade com temperatura entre 15 e 30 graus e disponibilidade de substrato adequado (feno, silagem, material verde picado, palha de forrageiras, cama de aviários e fezes de animais, sobretudo bovinos e suínos).

A alteração de modelos de produção em algumas regiões brasileiras, gerando condições de proliferação da mosca, traz preocupação aos pesquisadores. No caso do Mato Grosso do Sul, a pecuária ainda é sua mais forte atividade econômica no campo, mas o Estado é a nova fronteira brasileira – junto com Goiás – da indústria sucroenergética. A Embrapa registrou grande afluência das moscas durante aplicação de vinhaça nos campos de cana. Acredita-se que o aroma seja o atrativo para estes insetos.

Após a postura de ovos e desenvolvimentos das larvas em ambientes como os gerados pela industrialização da cana-de-açúcar (vinhaça empoçada, palhada, compostagem, etc.), o inseto que nasce consegue buscar alimento em um raio de até pouco mais de 10 km. É neste trajeto que podem encontrar e vitimar rebanhos. Além disso, nas próprias fazendas as moscas costumam encontrar condições propícias para a reprodução, como compostos com lama, restos de alimentos, fezes e urina de animais.


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